13 NOV 2025

Crise do leite mobiliza Santa Catarina e lota audiência pública na Alesc

A crise no setor leiteiro voltou ao centro do debate em Santa Catarina. E voltou com força. O que já vinha sendo denunciado por produtores, cooperativas e entidades do agro ganhou dimensão ainda maior na noite de quarta-feira (12), quando o auditório Antonieta de Barros ficou lotado por trabalhadores que estampavam no peito um adesivo que falava por si: “Luto pelo Leite”. Ali, na audiência pública promovida pela Comissão de Agricultura da Alesc, estavam expressas a angústia, a exaustão e a resistência de mais de 30 mil famílias que não conseguem mais fechar as contas.

Nos últimos meses, a matemática se tornou implacável. O litro pago ao produtor, que rondava R$ 2,40, despencou para menos de R$ 1,80. O valor não cobre os custos — ainda mais pressionados pelo milho, pelo farelo de soja, pela energia elétrica e pelo transporte, todos em curva ascendente. O resultado é conhecido: desestímulo, abandono da atividade e uma queda superior a 10% na produção catarinense, segundo a Epagri/Cepa.

Santa Catarina é o quarto maior produtor de leite do país, com 3,3 bilhões de litros produzidos só em 2024. Mas ser grande, neste momento, não tem sido suficiente para proteger quem coloca o alimento na mesa do brasileiro.

A crise do leite escancara um alerta que não pode mais ser empurrado adiante. Santa Catarina, essencialmente agrícola e referência nacional em produtividade, vê uma de suas cadeias mais tradicionais agonizar. O que se discutiu na Alesc vai muito além de números. É sobre permanência no campo, economia regional, soberania alimentar e, sobretudo, a dignidade de milhares de famílias que fazem do leite o seu sustento diário.

O tom da audiência deixou claro que o problema já ultrapassou o alarmante. Para o deputado Altair Silva (PP), propositor do encontro, é uma questão de urgência. “O produtor de leite está no limite. Não podemos permitir que essa crise comprometa uma das cadeias mais importantes do nosso agronegócio”, disse, defendendo uma ação conjunta entre governo estadual, bancada federal e entidades do setor.

O presidente da Alesc, Julio Garcia (PSD), reforçou a dimensão estrutural da crise e garantiu que o Parlamento catarinense dará máxima prioridade aos encaminhamentos. Entre eles, a tramitação célere do PL 768/2025, que veta a reconstituição de leite em pó importado para venda como leite fluido — medida considerada emergencial por quem está no campo.

Em Brasília, outro projeto segue a mesma linha: o PL 4309/23, da deputada Daniela Reinehr (PL-SC), que busca proibir a importação e reidratação de leite em pó para comercialização no Brasil.

Concorrência externa e consumo em queda

A tempestade perfeita que atinge o setor, como definiu o presidente do Sindileite, Selvino Giesel, combina fatores simultâneos: produção elevada, consumo interno em retração e aumento das importações, especialmente de Argentina e Uruguai, cujos produtos chegam ao Brasil até 30% mais baratos.

E há outra distorção: segundo Giesel, entre os dez maiores importadores de leite em pó e UHT no país, nenhum é indústria de laticínios — algo que desnivela ainda mais o mercado.

“A indústria está operando no vermelho. O UHT gera R$ 0,35 de prejuízo por litro”, alertou. Entre as medidas sugeridas, ele defendeu maior rigor sanitário nas importações, compras governamentais para reduzir estoques e até a suspensão temporária da entrada de leite estrangeiro.

O deputado Oscar Gutz (PL), que também propôs a audiência, falou como agricultor: “Quem levanta às cinco da manhã sabe o que é não ter folga. A agricultura sustenta o campo e a economia catarinense. Produtor de leite não quer nada além de condições de continuar existindo”.

Comissão estratégica

Ao final do encontro, foi criada uma comissão mista que atuará junto ao governo federal e ao governo catarinense para consolidar e defender as medidas levantadas. Integram o grupo:  deputados Altair Silva e Oscar Gutz; presidente da Faesc, José Zeferino Pedroso; presidente da Uvesc, Marcilei Vignatti; prefeito de Xaxim, Chico Folle; secretário de Estado da Agricultura, Carlos Chiodini, e deputado federal Valdir Cobalchini (MDB-SC)

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