13 FEV 2026

Quando pais matam filhos, homens matam mulheres e instituições falham. Não são casos isolados, é sintoma social

Há algo profundamente errado conosco. E talvez o mais alarmante não seja apenas a sucessão de fatos brutais que ocupam manchetes, mas a naturalização silenciosa com que parte da sociedade passa a conviver com eles.

Vivemos um tempo em que maus-tratos a animais se repetem. Em que pais matam filhos. Em que mulheres seguem sendo assassinadas simplesmente por serem mulheres. Em que guerras por disputas territoriais seguem ceifando milhares de vidas, como se a história nada tivesse ensinado. Em que se revelam décadas de exploração e maus tratos de crianças. Em que instituições criadas para nos proteger, garantir direitos e assegurar justiça aparecem envoltas em denúncias, desvios e práticas que ferem exatamente os valores que deveriam defender.

Não são episódios isolados. São sintomas.

Sintomas de uma sociedade adoecida, que parece ter perdido parte da sua capacidade de indignação. Que relativiza a violência. Que banaliza a crueldade. Que se acostuma a conviver com a injustiça como se fosse paisagem.

E o paradoxo é cruel: deveríamos estar vivendo um período de leveza, de alegria, de celebração. É carnaval. Tempo historicamente associado à festa, à música, ao encontro. Mas como se desligar verdadeiramente do que temos vivenciado? Como fingir normalidade diante de tanta dor exposta diariamente?

O problema é mais profundo do que a criminalidade em si. Ele está na falta de referências morais, na fragilização dos limites éticos, no individualismo extremo que coloca o “eu” acima de qualquer noção de coletividade.

Assistimos diariamente a vaidades humanas se sobrepondo à ética. A disputas de poder que ignoram consequências. A projetos pessoais que atropelam princípios. A quem deveria zelar pelo bem público tratando o que é de todos como se fosse de ninguém — ou pior, como se fosse propriedade privada.

Quando um animal é espancado, não é “apenas” crueldade. É incapacidade de empatia. Quando crianças são vítimas de maus-tratos, exploração ou até tráfico — como no estarrecedor caso Eispen — estamos diante da mais grave ruptura civilizatória. Quando pais matam seus próprios filhos, rompe-se a última fronteira do instinto de proteção. Quando uma mulher é morta por um companheiro, ex, ou alguém que se sente “dono” de sua vida, não é crime passional. É a expressão de uma cultura que ainda enxerga a mulher como posse, extensão de um ego ferido.

Quando instituições falham, se corrompem ou se afastam de sua missão, o estrago não é apenas administrativo. É simbólico. Porque mina a confiança social. E uma sociedade sem confiança entra rapidamente em colapso.

Passamos por uma pandemia. Perdemos milhões de vidas. Muitos acreditavam que sairíamos melhores: mais solidários, mais conscientes, mais humanos.

Temos que admitir: em vários aspectos, pioramos.

Hoje, o ódio encontra palco fácil. A agressividade vira linguagem comum. O desrespeito é monetizado por curtidas, visualizações e engajamento.

Não se trata de idealizar o passado. Ele também teve horrores. A diferença é que agora temos mais informação, mais tecnologia, mais acesso e menos humanidade.

Talvez a grande pergunta seja: queremos continuar assim?

Porque não existe saída coletiva sem responsabilidade individual. Não existe transformação sem revisão de comportamentos.

Nossa sociedade está doente, sim. Mas doenças podem ser tratadas — desde que exista diagnóstico honesto e vontade real de cura.

E essa cura começa, inevitavelmente, dentro de cada um de nós.

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