19 MAR 2026

O PSD e a crise que não conseguiu conter

A crise recente do PSD de Santa Catarina não é apenas mais um episódio de divergência interna. Ela expõe, com clareza, os limites de um modelo partidário que se sustenta na força de suas lideranças, mas que falha quando precisa organizá-las em torno de um projeto comum.

Em poucos dias, o partido viu a pré-candidatura de João Rodrigues ao governo ser reafirmada, o prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, romper com a sigla após ameaças de expulsão por apoiar a reeleição de Jorginho Mello, e Paulinho Bornhausen também anunciar sua saída. Não se trata de um ruído pontual. É uma sequência de fatos que revela desorganização, ausência de mediação eficaz e perda de controle político sobre o próprio processo interno.

O PSD nacional nasceu, em 2011, com a proposta de ser uma legenda ampla, pragmática e avessa a rótulos ideológicos rígidos. Esse DNA, que lhe deu capilaridade e crescimento rápido, também carrega um risco: o de reunir diferentes projetos sob o mesmo abrigo sem estabelecer, de forma clara, os limites dessa convivência.

Em Santa Catarina, esse desafio se torna ainda mais sensível. O partido se estrutura sobre uma tradição política marcada por lideranças fortes, articulação de bastidores e histórico de reorganizações. É um ambiente que exige coordenação constante — e não improviso.

E esse é o ponto central da crise.

O apoio de Topázio à reeleição de Jorginho Mello não é, por si só, um desvio fora da curva. Em um sistema político fragmentado, movimentos desse tipo fazem parte do jogo. O problema está na forma como o partido reagiu: transformando uma divergência estratégica em confronto público, com escalada de tensão, ameaça de expulsão e, por fim, ruptura.

Quando um partido precisa recorrer à exposição para resolver seus conflitos internos, ele já perdeu uma etapa anterior — a da política como instrumento de mediação.

Mas há um elemento que torna esse episódio ainda mais revelador.

Ao contrário do que se poderia esperar em um momento de crise, não houve um movimento claro, inequívoco e consolidado de unificação por parte das principais lideranças históricas do partido. E isso muda a leitura do episódio.

A ausência de um apoio firme e indiscutível capaz de encerrar o debate interno não é um detalhe. É um sinal. Mostra que a divergência não estava restrita a um ou outro nome, mas alcançava o próprio núcleo de comando.

Na política, a falta de posição também comunica.

Quando lideranças com capacidade de arbitragem não assumem publicamente o papel de organizar o partido em torno de uma decisão, o efeito não é neutralidade — é prolongamento da crise. Abre-se espaço para múltiplas leituras, mantém-se o ambiente de incerteza e enfraquece-se qualquer tentativa de consolidar um caminho único.

O resultado é visível: o conflito deixa de ser administrado e passa a ser resolvido por ruptura.

A saída de Topázio, acompanhada da carta dura em que denuncia práticas como intimidação e retaliação, não apenas formaliza um desligamento. Ela expõe publicamente a versão de um dos principais atores do processo. E, em política, versões têm peso. Moldam percepções, influenciam aliados e alimentam narrativas que dificilmente são revertidas no curto prazo.

A desfiliação de Paulinho Bornhausen, no mesmo contexto, amplia o diagnóstico. Mostra que o desgaste não foi individual, mas sintoma de um desalinhamento mais amplo dentro do partido.

E é aqui que a história cobra seu preço.

O campo político que ajudou a formar o PSD em Santa Catarina carrega, em sua origem, episódios de dissidência e reorganização. Ou seja, conhece — por experiência — o custo das rupturas internas. Justamente por isso, deveria saber que divergência não se elimina por imposição, mas se administra por construção.

Quando essa construção falha, o que resta é o confronto. E o confronto, quase sempre, produz perdas.

A principal lição do PSD catarinense, portanto, não está na disputa entre nomes, nem na escolha entre candidatura própria ou alinhamento externo. Está no método.

Partidos amplos só funcionam com mediação forte. Sem ela, a diversidade vira fragmentação. A liderança vira disputa. E o pragmatismo vira conflito aberto.

O PSD demonstrou que tem força para lançar uma candidatura competitiva. Mas a crise recente deixa uma dúvida mais relevante: tem a mesma capacidade para sustentar politicamente essa candidatura sem se fragmentar?

Porque, no fim, não é a divergência que enfraquece um partido. É a incapacidade de organizá-la.

E, neste episódio, o PSD não apenas enfrentou uma crise. Mostrou que ainda não conseguiu contê-la.

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