24 MAR 2026
Ausências que dão rosto ao feminicídio. O que a websérie do MPSC obriga a ver
Havia outros temas possíveis para a coluna de hoje. Mas poucos tão inadiáveis quanto a apresentação da websérie Ausências: as histórias por trás do Mapa do Feminicídio, feita nesta terça-feira (24), pelo Ministério Público de Santa Catarina a jornalistas, familiares de vítimas e convidados. O encontro foi cercado de emoção, mas não apenas por sua carga humana. Foi também pela força de um projeto que consegue unir evidência, narrativa e responsabilidade institucional.
A potência da série está em retirar o feminicídio do lugar frio da estatística e devolvê-lo ao terreno da vida interrompida. Construída a partir dos dados do Mapa do Feminicídio, a produção resgata histórias reais de mulheres assassinadas em Santa Catarina e mostra que, por trás de cada número, há uma ausência definitiva na vida de filhos, mães, pais e famílias inteiras.
Os dados apresentados no evento dimensionam a gravidade do problema. Entre 2020 e 2024, 64,6% das mortes de mulheres no estado ocorreram por razões de gênero. Em 71% dos casos, os crimes foram cometidos por companheiros. Em 76%, aconteceram dentro da casa da vítima. E duas em cada três mulheres assassinadas em Santa Catarina foram vítimas de feminicídio. Não se trata de exceção. Trata-se de padrão.
Mas o mérito de Ausências não está apenas no diagnóstico. Está na forma. Ao dar voz a quem ficou, a websérie evidencia algo que o debate público ainda aborda pouco: o feminicídio não termina com a morte da mulher. Ele continua no trauma, na infância órfã, na rotina quebrada e na memória ferida. A lembrança de que ainda não há dados, políticas específicas ou protocolos voltados aos órfãos do feminicídio talvez seja uma das faces mais duras desse silêncio.
A procuradora de Justiça Vanessa Cavallazzi ressaltou que a maior parte dos casos acontece no ambiente familiar. Também chamou a atenção para outras formas de feminicídio ainda pouco visibilizadas, mas igualmente marcadas pela lógica de tratar a mulher como posse e objeto.
Santa Catarina ganha, com esse trabalho, mais do que uma produção audiovisual. Ganha uma ferramenta de enfrentamento e um espelho desconfortável. Um espelho que mostra que a violência contra a mulher segue acontecendo, em grande parte, no espaço que deveria proteger: dentro de casa e nas relações marcadas por posse, controle e desigualdade.
Para quem quiser assistir, a websérie está disponível na TV MPSC no YouTube: TV MPSC. O lançamento oficial da série e do Mapa do Feminicídio está marcado para 30 de março de 2026, em Florianópolis.
*Com informações e foto MPSC


