08 JUN 2026

A surpresa de voltar a uma realidade que corre, choca e confunde

Eu me permiti um feriadão. Para quem vive da notícia, escreve, analisa fatos e há décadas mantém a cabeça ligada no que acontece ao redor, desligar não é tarefa simples. É quase uma ousadia.

Fui em busca de descanso. Com enorme tentação pela informação, confesso. Jornalista tem antena própria. Mesmo quando tenta silenciar, a cabeça insiste: o que aconteceu? Que fato explodiu? Que pauta mudou o rumo do dia?

Mas resisti.

Voltei nesta segunda-feira, dia 8, querendo me atualizar. E a sensação foi a de abrir uma porta e encontrar uma realidade correndo sem freio.

E assim, em poucas horas, o noticiário reuniu morte, Justiça, fraude, mistério, tradição, meio ambiente e comportamento. Tudo junto. Tudo rápido. Tudo disputando atenção, indignação e alguma tentativa de compreensão.

O caso Henry Borel voltou como uma ferida que não fecha. Jairinho foi condenado. Mas a decisão em relação à mãe de Henry, com desclassificação do crime e perdão judicial, provoca uma indignação difícil de conter. A Justiça tem seus ritos, seus fundamentos e seus limites. Mas há casos que não ficam apenas nos autos. A morte brutal de uma criança de quatro anos atinge a consciência de todos nós. Henry não pode ser tratado como mais um processo que chega ao fim.

Logo depois, outro caso quase inacreditável: uma mulher de 37 anos presa em Joinville depois de se passar por uma menina de 12. Teria vivido por meses como filha adotiva de uma família, usando comportamento infantilizado, histórias de sofrimento e explicações que ainda desafiam qualquer entendimento. O absurdo é dela, claro. Mas o episódio também deixa perguntas incômodas. Como uma história dessas vai tão longe? Como atravessa acolhimento, boa-fé, família, igreja, redes de proteção? Não se trata de condenar quem acolheu. Trata-se de perceber como a solidariedade, quando não vem acompanhada de checagem, pode ser manipulada.

E, como se a realidade já não estivesse estranha o suficiente, surgem relatos de ETs no Paraná. Luzes, vídeos, barulhos, especulações. Fato ou fake? Até aqui, o fato concreto é a repercussão. O resto exige cautela. Em tempos de redes sociais, qualquer mistério dura pouco antes de virar certeza para uns, piada para outros e conteúdo para muitos. Talvez a pergunta mais importante nem seja sobre extraterrestres. Seja sobre a nossa pressa em transformar dúvida em espetáculo.

No meio desse turbilhão, uma notícia toca diretamente Santa Catarina: a suspensão da pesca de arrasto da tainha. Para quem vive no litoral, tainha não é apenas peixe. É tradição, cultura, economia, memória afetiva, vento sul, rede, praia e comunidade reunida. A decisão tem base técnica, envolve cota e preservação. Mas também expõe, mais uma vez, o desafio de equilibrar proteção ambiental e modos de vida que fazem parte da identidade catarinense.

Até a Linguiça Blumenau entrou no noticiário. A tentativa de alterar características da receita tradicional, depois revogada pelo governo estadual, mostrou que nem mesmo um patrimônio gastronômico catarinense escapa da velocidade das decisões, das reações e das disputas entre regra técnica, tradição e identidade regional.

Como definir os tempos atuais?

Vivemos numa época em que os fatos não nos dão mais tempo nem para o espanto. Uma notícia mal termina de chocar e outra já pede reação. A indignação envelhece depressa. A surpresa dura pouco. A reflexão, quando aparece, precisa disputar espaço com o próximo alerta na tela.

Nunca tivemos tanta informação. E talvez nunca tenha sido tão difícil separar o que merece análise do que é apenas barulho.

Por isso, desligar por alguns dias não me afastou da realidade. Ao contrário. Fez com que eu voltasse a ela com mais estranhamento e, talvez também com mais lucidez.

Porque acompanhar o mundo é necessário.

Mas não ser atropelada por ele também é.

*Imagem por IA

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