10 JUN 2026

O voto grisalho entrou no centro da eleição e experiência vota

Durante muito tempo, partidos e candidatos olharam para os jovens como o grande território eleitoral a ser conquistado. O eleitor que vota pela primeira vez, a mobilização nas universidades, a linguagem das redes, o apelo dos 16 e 17 anos. Tudo isso continua importante. Mas a eleição de 2026 traz um dado que precisa ser observado com atenção: o Brasil envelheceu. E a urna também.

Levantamento da Nexus, com base em dados do Tribunal Superior Eleitoral e IBGE , mostra que o número de brasileiros com mais de 60 anos aptos a votar cresceu 74% desde 2010. Passou de 20,8 milhões para 36,2 milhões em março deste ano. No mesmo período, o eleitorado geral cresceu 15%. Não é pouca coisa. É uma mudança profunda no peso político de uma geração que já não pode ser tratada como público secundário de campanha.

Na prática, os eleitores 60+ já representam 23,2% do eleitorado brasileiro. Quase um em cada quatro votos. É praticamente o dobro da participação dos jovens de 16 a 24 anos, que somam 11,9%. A política que continuar olhando apenas para a juventude como símbolo de renovação pode estar deixando de enxergar uma parcela numerosa, presente e influente da população.

Não se trata de dizer que os 60+ decidirão sozinhos uma eleição. Eleição nunca se explica por um único recorte. Mas em disputas cada vez mais apertadas, nenhum grupo desse tamanho pode ser ignorado. Ainda mais quando se fala de um eleitorado que acompanha política há décadas, compara governos, conversa em família, participa de grupos, recebe informações pelo celular e ajuda a formar opinião dentro e fora de casa.

Há outro ponto importante. Entre 60 e 69 anos, o voto ainda é obrigatório. E esse grupo comparece. Em 2022, a presença nas urnas nessa faixa ficou acima da média geral. Depois dos 70 anos, o voto passa a ser facultativo. Mas quem sai de casa para votar sem obrigação legal costuma levar consigo algum grau de convicção, interesse ou consciência cívica.

É aí que partidos e candidatos precisam ajustar a escuta. Não basta colocar uma pessoa idosa em peça de campanha, repetir expressões como “melhor idade” e considerar o assunto resolvido. O eleitor 60+ quer ser tratado como cidadão inteiro. Quer ouvir propostas sobre saúde, renda, previdência, medicamentos, segurança, mobilidade, moradia, cuidado e inclusão digital. Mas também quer ser ouvido sobre economia, educação, infraestrutura, costumes, gestão pública e futuro.

Também é ultrapassada a ideia de que esse público está fora do ambiente digital. Pode não estar nas redes da mesma forma que os mais jovens, mas está nos grupos de WhatsApp, assiste vídeos, compartilha notícias, comenta, cobra e se posiciona. Muitas vezes, é ali que a conversa política ganha força.

Em Santa Catarina, o alerta também vale. O Estado chegou a cerca de 5,7 milhões de eleitores aptos a votar nas eleições de 2026. Num cenário estadual competitivo, em que alianças estão sendo desenhadas e candidaturas majoritárias começam a ganhar forma, cada segmento do eleitorado precisa ser compreendido com mais cuidado.

A novidade, portanto, não é que os jovens perderam importância. É que eles já não ocupam sozinhos o centro da estratégia eleitoral. O país mudou de perfil. As pessoas vivem mais, trabalham por mais tempo, consomem informação por mais tempo, participam por mais tempo e votam por mais tempo.

Quem falar apenas para o eleitor jovem pode até parecer moderno. Mas quem souber conversar com o eleitor 60+ talvez esteja mais perto de entender o Brasil real.

A urna de 2026 terá juventude, sim. Mas terá também experiência. E experiência vota.

*Imagem de IA

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