19 JUN 2026

Por que os elogios de Vaguinho e Topázio chamaram atenção na política catarinense? Gratidão ainda cabe na política?

Dois episódios recentes chamaram a atenção na política catarinense. Em Criciúma, o prefeito Vagner Espíndola, o Vaguinho, do PSD, elogiou o governador Jorginho Mello (PL), por obras muito aguardadas pela região Sul. Em outro movimento, Décio Lima, pré-candidato ao Senado pelo PT, destacou os elogios feitos pelo prefeito de Florianópolis, Topázio Neto (PSD), ao governo do presidente Lula.

Análises, especulações e registros políticos à parte, os dois episódios permitem uma reflexão que vai além dos nomes envolvidos e das questões partidárias e eleitorais. Gratidão e reconhecimento também deveriam estar entre as qualidades dos homens públicos.

Gratidão não pode ser reduzida a uma figurinha com as mãos juntas, usada tantas vezes nas mensagens de celular como substituta apressada de um “muito obrigado”. Gratidão é mais do que isso. É reconhecimento. É admitir que algo foi feito, que uma ação teve importância, que uma entrega chegou aonde precisava chegar.

Na política, esse gesto parece cada vez mais raro. A polarização transformou até o agradecimento em motivo de suspeita. Se um prefeito reconhece uma obra, logo surgem interpretações sobre troca de lado, cálculo eleitoral ou aproximação partidária. Se uma liderança elogia uma parceria institucional, não faltam leituras sobre o que estaria por trás da frase.

É evidente que a política tem seus movimentos. Ninguém ignora o tabuleiro, muito menos em período pré-eleitoral. Mas reduzir todo gesto público a estratégia empobrece o debate e afasta a política daquilo que deveria ser o seu centro: a vida das pessoas.

A população não vive de disputa partidária. Vive da estrada que sai do papel, da escola que melhora, da unidade de saúde que funciona, do recurso que chega, do serviço que atende, da obra que resolve um problema antigo. Quando isso acontece, reconhecer não deveria ser visto como fraqueza ou deslize.

Gratidão, na vida pública, não é bajulação, submissão ou adesão automática. Também não elimina a crítica nem impede a cobrança. Ao contrário: quem reconhece com justiça o que foi feito também ganha autoridade para cobrar o que ainda falta.

Nenhuma conquista pública acontece sozinha. Há equipes, técnicos, servidores, decisões administrativas, recursos e, muitas vezes, anos de reivindicação antes que uma obra saia do papel ou uma política pública chegue à população. Reconhecer esse caminho também é respeitar quem esperou, cobrou e acreditou.

Porque reconhecer não diminui ninguém. Ao contrário, revela grandeza.

Num tempo em que a polarização tenta transformar adversários em inimigos, a gratidão pode parecer um gesto simples. Mas, na política, quando é verdadeira, torna-se sinal de civilidade.

E civilidade, convenhamos, continua sendo uma das virtudes mais necessárias à vida pública.

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