09 JUL 2026
O horror que nos revolta e o milagre que ainda nos faz acreditar
Uma mãe soterrada, sem água, sem comida e cercada pela morte, mantém os filhos vivos com o próprio leite. A notícia corre o mundo como milagre. E talvez seja mesmo.
Mas, enquanto essa imagem nos emociona, outras nos ferem: crianças chutadas, exploradas, abusadas, silenciadas dentro de casa. De um lado, o amor levado ao limite para salvar. Do outro, a brutalidade de adultos que transformam a infância em dor.
Entre o horror e o milagre, fica uma pergunta difícil: que parte da humanidade estamos alimentando?
Há notícias que machucam. Entram pela tela do celular ou pela televisão, interrompem a rotina e nos obrigam a pensar no tipo de sociedade que estamos formando.
Nos últimos dias, relatos de violência contra crianças voltaram a causar indignação. Um pai flagrado chutando a própria filha pequena. Uma mãe suspeita de negociar as filhas para exploração sexual. Casos que se somam a tantos outros de abandono, abuso, maus-tratos e violência dentro de casa, justamente o lugar onde uma criança deveria se sentir protegida.
E, como se não bastasse, seguem os feminicídios. Mulheres mortas por homens que diziam amar. Famílias destruídas por uma violência que, quase sempre, começa antes: no controle, na ameaça, na humilhação, na agressão e no silêncio.
É impossível olhar para esses fatos sem revolta. Mas também é perigoso tratá-los como episódios isolados. Quando uma criança é agredida por quem deveria cuidar dela, alguma coisa falhou muito antes. Quando meninas são exploradas sexualmente, não falhou apenas a família. Falharam também os olhares ao redor, a rede de proteção, a denúncia, a escuta e, muitas vezes, a coragem de interferir.
No meio desse noticiário tão duro, veio da Venezuela uma história que surpreendeu o mundo. Após os terremotos que provocaram destruição e desespero, uma mãe teria conseguido manter os filhos vivos por mais de dez dias sob os escombros, recorrendo ao próprio leite materno.
A cena foi chamada de milagre. Talvez seja mesmo. Mas é, acima de tudo, uma das imagens mais fortes do instinto de proteção, do amor levado ao limite e da vida resistindo onde tudo parecia perdido.
De um lado, adultos que transformam crianças em vítimas. Do outro, uma mãe que, sem água, sem comida e cercada pela morte, usou o próprio corpo como última fonte de vida para os filhos. O contraste é brutal. E é nele que mora a reflexão.
A humanidade assusta quando revela sua face mais cruel. Mas também comove quando mostra sua capacidade de cuidado, coragem e renúncia. Somos capazes do pior e do melhor. Essa talvez seja uma das nossas maiores contradições.
Essas histórias pedem mais de nós. Pedem que vizinhos, escolas, familiares, profissionais de saúde, comunidades e autoridades estejam atentos aos sinais. Pedem que a infância seja responsabilidade de todos.
Pedem também que a violência contra a mulher seja enfrentada antes do último ato. Porque o feminicídio raramente começa no crime final. Ele costuma ser anunciado em comportamentos que a sociedade ainda demora a reconhecer ou prefere não enxergar.
A pergunta que fica não é apenas o que esperar da raça humana. A pergunta talvez seja outra: que parte da humanidade estamos alimentando?
A que se cala diante da violência ou a que protege? A que explora ou a que salva? A que normaliza a brutalidade ou a que se recusa a aceitar que crianças e mulheres continuem sendo vítimas dentro de casa?
- Imagens da internet

