10 SET 2026
Quando a inovação também exclui. Um alerta para empresas e governos
O futuro será mais digital e, também, muito mais velho. Ainda assim, seguimos criando serviços como se todas as pessoas tivessem a mesma habilidade com o celular, acesso fácil à internet e segurança para resolver a vida por meio de aplicativos. Podemos chegar a um país tecnologicamente avançado, mas incapaz de atender uma parcela cada vez maior da população.
Imagine uma pessoa idosa chegando a uma agência bancária e descobrindo que, para ser atendida, precisa primeiro digitar seus dados em uma máquina e utilizar um smartfhone para ler um QR Code. O que parece simples para alguns se transforma em obstáculo para outros. Se a tecnologia impede alguém de acessar o próprio dinheiro ou um direito básico, isso ainda pode ser chamado de inovação?
Já acompanhei situações assim. Diante do celular ou da máquina de atendimento, a pessoa tenta descobrir onde clicar, procura ajuda e não encontra. Muitas vezes, entrega o aparelho a um desconhecido e acaba expondo informações pessoais, dados bancários e até senhas.
Há também quem desista e vá embora acreditando que não consegue mais acompanhar o mundo. Como se a dificuldade estivesse na idade, e não em um sistema que não foi pensado para atender públicos diferentes.
A tecnologia facilitou a nossa vida. Pagamos contas, marcamos consultas e acessamos serviços sem sair de casa. A exclusão começa quando o aplicativo deixa de ser uma possibilidade e passa a ser o único caminho. O atendimento presencial desaparece e as respostas automáticas não conseguem compreender nem mesmo perguntas simples.
Nem todos possuem aparelhos atualizados ou acesso permanente à internet. Algumas pessoas enfrentam limitações de visão, audição ou coordenação motora. Outras têm receio de golpes ou não tiveram oportunidade de aprender a usar essas ferramentas.
Essa discussão é urgente. Segundo as projeções do IBGE, aproximadamente 37,8% da população brasileira terá 60 anos ou mais em 2070. Serão cerca de 75 milhões de pessoas. O envelhecimento do país não é uma hipótese distante. É uma transformação que já está em curso.
Isso não significa considerar todo idoso incapaz de acompanhar as mudanças. Muitos usam redes sociais, aplicativos bancários e diferentes plataformas com desenvoltura. Outros precisam de orientação. O respeito está em reconhecer essas diferenças, sem infantilizar quem envelheceu e sem abandonar quem necessita de ajuda.
Várias iniciativas para inclusão digital estão nas cidades e na própria internet. A procura, aliás, comprova que não falta interesse em aprender. Muitas vezes, falta quem ensine com clareza e paciência.
Ensinar, porém, não pode servir de justificativa para eliminar o atendimento humano. Empresas e órgãos públicos precisam manter alternativas seguras para quem não consegue resolver tudo por uma tela.
A verdadeira inovação não exclui. Ela amplia possibilidades e leva todas as gerações junto.
*Imagem gerada por IA


