13 MAR 2026

A sexta-feira 13 em que o PSD expôs a própria cozinha

Na política, quase nada surpreende de verdade. Ainda assim, a sexta-feira, 13 de março de 2026, entrou para o calendário catarinense como um daqueles dias em que os bastidores deixam de ser sussurro e passam a falar alto, diante das câmeras. O que era tensão interna no PSD virou crise aberta. E o que parecia encaminhar a desistência de João Rodrigues da disputa ao governo terminou numa reviravolta ruidosa: ele manteve a pré-candidatura, enquanto o partido anunciou a abertura de processo para expulsão do prefeito de Florianópolis, Topázio Neto.

Como definiu o colega Upiara Boschi, o PSD passou os últimos dias tentando “desfritar o ovo”. A imagem é precisa. Tudo começou, é verdade, antes da coletiva desta sexta. Topázio fez o movimento que já era esperado por boa parte do meio político: declarou apoio à reeleição do governador Jorginho Mello. Não foi exatamente surpresa. Nos bastidores, nunca foi segredo que havia pessedistas inclinados ao mesmo caminho. O problema não foi apenas o gesto. Foi o que ele representou dentro de um partido que tenta sustentar um projeto próprio para 2026 e que viu, no apoio de um prefeito de capital ao adversário, mais do que divergência: um desafio aberto à estratégia partidária.

A temperatura subiu de vez quando João Rodrigues, em grupo de conversas do PSD, lançou a frase que resumiu o impasse: “ou ele ou eu”. O recado era direto, o alvo também. Ali, o ovo começou a fritar sem chance de fogo baixo. O episódio escancarou que a crise já não se limitava a diferenças de leitura eleitoral. Havia ali disputa de comando, teste de força e uma cobrança explícita para que o partido escolhesse entre o prefeito de Chapecó, que constrói há anos sua caminhada ao governo, e o prefeito da Capital, que optou por se aproximar politicamente de Jorginho Mello.

Foi então que entrou em cena Jorge Bornhausen. Viajou a São Paulo para conversar com Gilberto Kassab, presidente nacional do PSD, e voltou com a tentativa de reorganizar o estrago. A coletiva convocada às pressas apontava para outro roteiro: Topázio permaneceria no partido, e o PSD poderia discutir outros nomes para a disputa estadual. Por algumas horas, a leitura dominante era de que João Rodrigues estava fora ou muito próximo disso. Parecia o desfecho. Não era.

Veio a madrugada, vieram as costuras, vieram os telefonemas. E, a julgar pela expressão apresentada horas depois, Eron Giordani provavelmente não dormiu. Ou, se dormiu, foi daqueles sonos que não descansam ninguém. Visivelmente abatido, com o semblante de quem atravessou a madrugada administrando uma crise fora de controle, o presidente estadual do PSD surgiu para anunciar que o partido abrirá na próxima semana o processo de expulsão de Topázio Neto. Em seguida, João Rodrigues não apenas confirmou que continua pré-candidato ao governo como endureceu o tom, chamando o prefeito da Capital de “traidor”. Não houve tentativa de disfarçar a dimensão do conflito. Ao contrário: a direção partidária decidiu expor a crise para demarcar posição.

Foi o momento em que a cozinha inteira apareceu. As panelas, frigideiras, labaredas, os cozinheiros e a disputa pelo comando do fogão. O PSD até conseguiu evitar, ao menos por agora, a implosão da pré-candidatura de João Rodrigues. Mas o preço foi alto: tornou pública uma guerra interna que antes corria por grupos de WhatsApp, conversas reservadas e articulações discretas. Salvou o nome, mas expôs a fragilidade da unidade. E unidade, em pré-campanha, vale quase tanto quanto voto.

No fundo, o partido fez uma escolha. Entre contemporizar a movimentação de Topázio e preservar a autoridade política de João Rodrigues, optou pela segunda hipótese. Mandou também um recado a Jorginho Mello: o PSD não pretende entrar em 2026 como força auxiliar do projeto de reeleição do governador. Quer ter candidatura, palanque e protagonismo. Resta saber se terá coesão suficiente para sustentar isso até o fim.

Há ainda um componente simbólico que a política, supersticiosa como é, adora incorporar. Esta sexta-feira 13 não foi uma data qualquer. E talvez tenha feito jus ao personagem. Houve tensão, presságio, crise, traição, ameaça de degola partidária e coletiva com cara de filme de suspense institucional.

  • Imagem gerada por IA
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