17 JUL 2026

Da Serra à Grande Florianópolis: a evolução do turismo rural. O turismo que nasce da terra, da cultura e das pessoas

Dois fatos desta semana chamaram minha atenção e mostram como o turismo rural atravessou décadas, ganhou força e se transformou em alternativa concreta de desenvolvimento.

O primeiro foi a morte, aos 85 anos, de Laélio Bianchini da Costa Ávila, um dos pioneiros da atividade em Santa Catarina. O segundo, que acompanhei de perto, foi o avanço do setor em Antônio Carlos, na Grande Florianópolis, onde a união entre poder público, entidades parceiras e produtores começa a transformar potencial em oportunidades.

A história de “Seu Laélio”, como o conheci, levou-me de volta aos anos 1980, quando morei em Lages e acompanhei o início de uma iniciativa que, naquele tempo, era novidade. A Fazenda do Barreiro abriu suas portas para visitantes interessados na rotina do campo, na gastronomia, nas cavalgadas, na natureza e nos costumes da região.

Hoje, tudo isso parece comum. Naquela época, não era.

Transformar uma propriedade rural em destino turístico exigia visão e coragem. Era preciso perceber que aquilo que fazia parte da vida das famílias do campo — a comida preparada no fogão, o chimarrão compartilhado, as histórias, os animais e o jeito de receber — também poderia atrair quem vivia nas cidades.

Ao lado da esposa, Tânia Ávila, Laélio transformou a Fazenda do Barreiro em referência nacional. Mais do que receber turistas, o casal criou uma experiência baseada na cultura serrana, marcada pelo tropeirismo, pelas cavalgadas, pelo fogo de chão, pelo chimarrão e pela hospitalidade das fazendas. A iniciativa ajudou a projetar Lages e abriu caminho para outras propriedades, cidades e regiões.

Décadas depois, encontrei esse mesmo movimento em Antônio Carlos, agora apoiado pela capacitação e pela organização do setor. A Prefeitura estabeleceu parcerias com o Sistema Faesc/Senar e o Sindicato Rural de São José para preparar produtores e famílias interessados em explorar o potencial turístico de suas propriedades. A criação da Associação de Turismo Rural de Antônio Carlos, a ATRAC, também mostra que os empreendedores compreenderam a importância do trabalho conjunto.

Antônio Carlos está próximo de Florianópolis, preserva características rurais e mantém forte produção agrícola. A herança germânica está presente na arquitetura, na gastronomia, nas festas, no modo de cultivar a terra e nas tradições mantidas pelas famílias. Essa identidade, somada às paisagens e à hospitalidade, forma um produto turístico autêntico.

Depois da pandemia, esse tipo de experiência ganhou ainda mais significado. As pessoas buscam natureza, tranquilidade, espaços abertos e uma relação mais verdadeira com os lugares visitados. Já não querem apenas chegar, fotografar e ir embora. Querem conhecer quem produz, provar os sabores locais, ouvir histórias e compreender o modo de vida de uma comunidade.

Para as famílias do campo, o turismo pode complementar a renda, valorizar produtos, fortalecer a agricultura familiar e estimular as novas gerações a permanecerem nas propriedades. Mas ter belas paisagens não basta. O setor exige planejamento, qualificação, acesso, divulgação e integração.

Entre a Fazenda do Barreiro que conheci há mais de quatro décadas e o trabalho realizado hoje em Antônio Carlos existe o mesmo princípio: reconhecer o valor da terra, das pessoas e das culturas de cada região. De um lado, a tradição serrana; de outro, a herança germânica. Histórias diferentes que revelam a força de um turismo baseado na identidade e em experiências verdadeiras.

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