22 ABR 2026
Ideologia, eu quero uma para viver
Desde os tempos de Cazuza, ideologia aparecia como desejo de vida, de luta, de pertencimento. Era quase uma necessidade de identidade. Na política, significava ter lado, causa, coerência. Hoje, a palavra continua em circulação, mas nem sempre com o mesmo peso. Em muitos casos, ela já não orienta o caminho. Entra depois, para ajudar a explicar o trajeto.
O Brasil vive um tempo em que os discursos seguem duros, os campos seguem demarcados e a retórica continua inflamada. Mas a engrenagem real da política gira em outro ritmo. Gira na lógica da composição possível, do arranjo suportável, da aliança útil. A convicção continua no palanque. Nos bastidores, o que prevalece é a conta.
Santa Catarina não escapou dessa regra. A movimentação em torno de 2026 mostra que o tabuleiro começa a ser ocupado menos por afinidades profundas e mais pela urgência de cada grupo em se localizar. O lançamento de Gelson Merísio, agora pelo campo da esquerda, ajuda a preencher um espaço que ainda estava em aberto. A esquerda catarinense, que até aqui rondava a disputa sem um nome mais definido, passa a ter rosto, discurso e ponto de partida.
No outro lado, João Rodrigues tenta consolidar uma frente capaz de enfrentar o governador. É um movimento importante, mas que depende menos da força individual do nome e mais da capacidade de manter o entorno unido. Porque candidatura majoritária, em Santa Catarina, não vive só de intenção. Precisa de base, de chapa, de nominata e de disciplina. E disciplina partidária, quando a eleição se aproxima, costuma ser uma virtude escassa.
Jorginho Mello, por sua vez, joga na condição de quem ocupa o centro do poder. E isso muda tudo. Quem governa não precisa apenas construir candidatura; precisa organizar o ambiente em torno dela. As exonerações de comissionados ligados a partidos que não formalizaram apoio ao projeto de reeleição caminham nessa direção. O gesto tem menos de rotina administrativa e mais de enquadramento político. A mensagem é simples: espaço no governo começa a cobrar reciprocidade.
É justamente nesse ponto que a velha palavra reaparece. Ideologia ainda serve para marcar posição, mobilizar militância, separar campos no discurso. Mas a política real tem mostrado outra prioridade: sobreviver, compor, ocupar, manter presença. Em vez de uma linha de pensamento a sustentar decisões, muitas vezes o que se vê é a tentativa de dar acabamento conceitual a movimentos decididos por interesse, estratégia e conveniência.
O PSD vive um pouco esse dilema. Tem nome, tem presença, tem ambição. Mas precisa transformar isso em estrutura e coesão. Uma candidatura ao governo não se sustenta apenas na cabeça de chapa. Ela depende do partido por inteiro, da capacidade de montar nominatas competitivas e de impedir que as disputas regionais corroam o projeto antes da largada. Sem essa retaguarda, o discurso fica maior do que a operação.
A disputa pelo Senado também mostra bem o tempo em que estamos. Com duas vagas em jogo, o cargo deixa de ser apenas objetivo eleitoral e passa a ser elemento central na costura das alianças. O Senado entra na mesa como peça de compensação, de equilíbrio, de acomodação. Não é só uma corrida paralela. É parte do coração da negociação.
No fim, o que se desenha no Brasil e em Santa Catarina é uma política em que a coerência já não aparece como ponto de partida obrigatório. Primeiro se monta a equação. Depois se procura a narrativa. Primeiro se define com quem é possível caminhar. Depois se explica por quê.
Talvez por isso o verso de Cazuza continue tão atual. Não porque faltem discursos sobre ideologia, mas porque anda faltando justamente aquilo que ela prometia: nitidez, convicção e direção. Há muita gente querendo uma para viver. E não são poucos os que parecem querer apenas uma para justificar o próximo movimento.
*Imagem de IA


