29 DEZ 2025
O combate à violência contra a mulher exige uma mudança cultural profunda e urgente. A pauta não é exclusiva das mulheres
Os recentes casos de feminicídio cometidos em locais públicos chocaram o país, não apenas pela brutalidade, mas pela mensagem que carregam: a violência contra a mulher segue naturalizada em muitos espaços da sociedade. Santa Catarina, infelizmente, não está fora desse cenário. Ao contrário, os números mostram que o problema cresce e exige uma resposta mais ampla, firme e coletiva. E essa resposta passa, necessariamente, pela participação ativa dos homens.
A erradicação da violência contra a mulher não é uma pauta exclusiva das mulheres. Trata-se de um desafio social que envolve valores, comportamentos e estruturas históricas profundamente enraizadas. O machismo e a misoginia não sobrevivem sozinhos — são reproduzidos, muitas vezes, em ambientes familiares, profissionais e sociais onde o silêncio masculino acaba funcionando como conivência.
Homens podem e devem atuar como aliados e defensores. Isso começa pelo enfrentamento cotidiano de atitudes machistas, piadas, comportamentos abusivos e discursos que minimizam a violência. Usar a própria voz e posição social para questionar essas práticas é uma forma concreta de romper padrões que alimentam o ciclo da agressão. Quando um homem se posiciona, ele envia uma mensagem clara: a violência não é aceitável, nem justificável.
Outro ponto fundamental é quebrar o silêncio. A omissão ainda é uma das maiores aliadas da violência. Ao se posicionarem publicamente, homens ajudam a desmontar a falsa ideia de que agressões contra mulheres são “problemas do casal” ou questões privadas. Não são. São crimes e violam direitos humanos básicos.
A educação também é uma frente estratégica. Pais, padrastos, avôs, tios, professores e educadores do sexo masculino exercem enorme influência na formação das próximas gerações. A chamada paternidade positiva — baseada no respeito, no diálogo, na igualdade e no consentimento — é um antídoto poderoso contra a reprodução da violência. Meninos aprendem muito mais pelo exemplo do que pelo discurso.
Há ainda a necessidade de buscar ajuda e informação. Reconhecer comportamentos tóxicos, controlar impulsos agressivos e intervir de forma responsável diante de situações de risco também é parte desse compromisso. Homens que se dispõem a rever atitudes contribuem para salvar vidas — inclusive a própria.
Os dados ajudam a dimensionar a gravidade do problema. O Brasil bateu recorde de agressões contra mulheres. Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que 37,5% das brasileiras sofreram algum tipo de violência nos últimos 12 meses — mais de 21 milhões de vítimas. É o pior índice desde 2017. Em outras palavras: uma em cada três mulheres foi violentada.
Em Santa Catarina, os números também alarmam. Até outubro de 2025, 38 mulheres foram mortas em razão do gênero. Até 24 de novembro, segundo a Polícia Civil, outras nove vítimas foram registradas como feminicídio. O estado figura entre os dez que mais matam mulheres por serem mulheres, especialmente em contextos de violência doméstica.
Especialistas e autoridades são unânimes em apontar que o momento de rompimento da relação é um dos mais perigosos para as mulheres. A rejeição, muitas vezes, desperta raiva, ódio e desprezo — expressões claras da misoginia que estrutura parte da sociedade. Foi assim em casos recentes que ganharam repercussão nacional: Tainara, que morreu após ter as pernas amputadas ao ser atropelada e arrastada; Evelyn, baleada seis vezes dentro do próprio local de trabalho; e Camila, vítima de violência doméstica, atropelada em plena luz do dia.
Violência contra a mulher é qualquer ação ou omissão baseada no gênero que cause dano físico, psicológico, sexual, moral, social, político ou econômico, podendo ocorrer tanto em espaços públicos quanto privados. Quando essa violência culmina no assassinato, temos o feminicídio — crime que, desde outubro de 2024, passou a ser tipificado de forma autônoma no Código Penal, com pena de 20 a 40 anos de reclusão, a mais alta prevista na legislação brasileira.
Diante desse cenário, não há mais espaço para neutralidade.


