23 ABR 2026
O que aconteceu com a estatal mais confiável do Brasil?
Os Correios fecharam 2025 com prejuízo de R$ 8,5 bilhões. O dado, divulgado nesta quinta-feira (23), aprofunda uma sequência de resultados negativos iniciada em 2022 e recoloca no centro do debate uma pergunta incômoda: o que aconteceu com uma das empresas que, por décadas, foi considerada uma das mais confiáveis do Brasil?
Durante muito tempo, os Correios foram mais do que uma estatal. Foram presença. Chegavam aonde quase ninguém chegava. Levavam cartas, documentos, encomendas, notícias de família, boletos, sonhos e esperas. Em muitas cidades pequenas, a agência era uma das faces mais conhecidas do Estado brasileiro.
A história ajuda a medir o tamanho da queda. A atividade postal no país vem do período colonial. Em 1969, com a criação da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, a estrutura ganhou novo desenho. Pouco depois, veio o CEP, que organizou a distribuição e consolidou a empresa como referência nacional de capilaridade.
Mas o mundo mudou. E os Correios não mudaram na mesma velocidade.
O comércio eletrônico alterou completamente a lógica da logística. Empresas privadas avançaram, grandes plataformas criaram suas próprias redes de entrega e o consumidor passou a exigir rastreamento em tempo real, prazo curto, atendimento ágil e menos burocracia.
O e-commerce pesou, claro. Mas não explica tudo. Em outros países, empresas postais tradicionais viram nas compras online uma oportunidade. Modernizaram centros de distribuição, investiram em tecnologia, ampliaram serviços e se reposicionaram.
No Brasil, os Correios tinham quase tudo para liderar esse movimento: marca conhecida, presença nacional, estrutura de distribuição e confiança acumulada por gerações. A pergunta é porque não conseguiram transformar esse patrimônio em vantagem competitiva na hora certa.
A série negativa começou em 2022, com prejuízo de R$ 767 milhões. Em 2023, a perda foi de R$ 597 milhões. Em 2024, saltou para R$ 2,6 bilhões. Agora, em 2025, chegou a R$ 8,5 bilhões. A curva não mostra apenas um ano ruim. Mostra crise de modelo, gestão e posicionamento.
A resposta passa, inevitavelmente, por gestão. Não por uma gestão apenas, nem por um governo isolado. Passa por decisões adiadas, disputas internas, custos elevados, amarras administrativas e dificuldade de enxergar novos caminhos antes que o mercado ocupasse o espaço.
Há também o peso de despesas financeiras, obrigações judiciais, custos operacionais e queda de receitas. Tudo isso ajuda a explicar o tamanho do prejuízo. Mas não encerra a questão. Uma empresa com a história e a força simbólica dos Correios não chega a esse ponto apenas porque o mercado mudou. Chega também porque demorou a mudar com ele.
Os Correios não são uma empresa qualquer. Têm papel público relevante, especialmente em municípios menores e em regiões onde o mercado privado não chega com o mesmo interesse. Mas função pública não pode servir de abrigo para ineficiência. Quanto mais essencial o serviço, maior deve ser a exigência por gestão moderna, governança e responsabilidade.
O que eu observo é que a crise revela um dilema brasileiro conhecido. O país tem dificuldade de preservar suas instituições sem deixá-las presas ao passado. Valoriza a história, mas nem sempre cobra atualização. E, quando a conta chega, o debate costuma se resumir a privatizar ou manter estatal, como se a única escolha possível fosse ideológica.
Antes disso, há uma pergunta mais direta: qual é, afinal, o projeto para os Correios?
A estatal já foi sinônimo de confiança. Agora, precisa entregar respostas.


