14 MAIO 2026
Pesquisa revela: nossa sociedade vive com medo. Para as mulheres, esse medo muda horários, trajetos e escolhas
O medo, de tão cotidiano, começa a parecer normal. Talvez por isso os dados divulgados recentemente pelo Datafolha talvez não tenham recebido o destaque que mereciam.
O levantamento mostra que 41% das mulheres brasileiras deixaram de sair à noite no último ano por medo da violência. O número, por si só, já deveria provocar uma reflexão mais ampla. Não fala apenas de segurança pública. Fala de liberdade, circulação, autonomia e comportamento social.
O fato é que nossa sociedade vive com medo. Medo de assalto, de golpe, de bala perdida, de ter o celular roubado, de ser abordado na rua, de não voltar para casa. Mas, para as mulheres, esse medo tem outras camadas. Envolve o corpo, o trajeto, o horário, a roupa, o transporte, a companhia e o risco de violência sexual.
A pesquisa também aponta que 37,8% das mulheres deixaram de sair com o celular na rua por medo de assalto. Quando o assunto é agressão sexual, o medo atinge 82,6% delas. São números que ajudam a explicar comportamentos já incorporados à rotina feminina: mudar caminhos, evitar horários, compartilhar localização, avisar quando chega, atravessar a rua, calcular cada deslocamento.
Em Santa Catarina, o recorte exige atenção. Os dados oficiais mostram queda em alguns indicadores de criminalidade no acumulado de janeiro a abril de 2026, como roubos e homicídios. Mas há um número que impede qualquer leitura confortável: os feminicídios subiram de 14 para 22 vítimas no mesmo período, um aumento de 57% em relação ao ano anterior.
É justamente aí que a discussão precisa avançar. A redução de determinados crimes não elimina a sensação de insegurança, muito menos o risco vivido pelas mulheres dentro e fora de casa. O medo feminino não se limita ao assalto ou à violência urbana em sentido amplo. Ele atravessa relações, deslocamentos, espaços públicos e privados.
Quando quatro em cada dez mulheres deixam de sair à noite, não estamos diante de uma escolha individual. Estamos diante de uma mudança social. Menos presença nas ruas, menos convivência, menos lazer, menos autonomia.
Segurança pública, nesse caso, não pode ser tratada apenas como policiamento ou estatística geral. Precisa envolver prevenção, investigação, iluminação urbana, monitoramento, transporte seguro, acolhimento, medidas protetivas eficazes, responsabilização de agressores e uma rede capaz de chegar antes da tragédia.
O número assusta. Mas o que ele revela assusta ainda mais: muitas mulheres seguem vivendo, trabalhando e circulando. Só que seguem fazendo tudo isso com medo, com consequências graves em suas mentes e qualidade de vida.
*Imagem IA


