30 MAR 2026

Quando o excesso de telas vira tema de Parlamento

A preocupação com o uso excessivo de telas por crianças e adolescentes deixou de ser apenas tema de conversas em casa, nas escolas ou nos consultórios. Em Santa Catarina, entrou também na pauta do Parlamento. O debate promovido pela Alesc nesta segunda-feira, 30, sobre infância, saúde mental e uso consciente da tecnologia, mostra que o assunto já se impõe como questão pública.

Não se trata de condenar a tecnologia, nem de ignorar que o ambiente digital faz parte da vida contemporânea. A questão está no excesso e nos efeitos que ele provoca. Quando o uso ultrapassa limites, passa a interferir na atenção, na aprendizagem, na convivência e até na segurança de crianças e adolescentes. Foi esse o eixo do debate realizado pela Comissão de Economia, Ciência, Tecnologia e Inovação da Alesc, em parceria com o movimento Mulheres que Fazem Floripa, reunindo especialistas para discutir impactos cognitivos, emocionais e sociais da exposição prolongada às telas.

A Assembleia acerta ao não tratar o tema como histeria ou modismo. O Parlamento catarinense vem construindo, ao longo dos anos, uma atuação nessa área. Em 2019, instituiu, por iniciativa da então deputada Marlene Fengler, a Semana de Conscientização, Orientação, Prevenção e Combate à Dependência Tecnológica. Em 2021, por proposta do então deputado Kennedy Nunes, criou a Política de Educação Digital nas Escolas, voltada ao uso seguro da tecnologia e à cidadania digital. Já em 2025, mais um avanço com a criação da Semana Estadual de Conscientização sobre a Segurança Digital nas escolas estaduais, em lei de autoria da deputada Ana Campagnolo.

Essa sequência de iniciativas mostra que a Alesc não apenas reage ao problema, mas procura estabelecer instrumentos de prevenção, orientação e debate. E isso importa. Quando o poder público assume o tema, ele deixa de ser tratado apenas como falha individual ou dificuldade doméstica e passa a ser enfrentado como responsabilidade coletiva.

Também por isso o debate não se resolve com proibições genéricas nem com discursos alarmistas. Exige informação, presença dos adultos, educação digital e políticas públicas que acompanhem a velocidade com que a tecnologia entrou na rotina das famílias. As falas apresentadas na Assembleia caminharam nessa direção, ao abordar saúde mental, segurança digital, cyberbullying, aliciamento e prejuízos ao desenvolvimento emocional e cognitivo. O alerta é claro: a lógica do estímulo imediato, das recompensas rápidas e da atenção fragmentada já produz efeitos concretos sobre comportamento, vínculos e aprendizagem.

Há ainda um dado que reforça a atualidade dessa discussão. O Brasil passou a contar, em 17 de março de 2026, com o chamado ECA Digital, que estabelece novas regras de proteção de crianças e adolescentes no ambiente online. Isso torna ainda mais necessário que os estados e seus parlamentos mantenham o tema em evidência.

A infância hiperconectada não pode ser tratada como assunto secundário. Ao legislar e abrir espaço para o debate público, a Alesc cumpre um papel que não é apenas formal. Lembra que, diante das telas, proteger também significa orientar, prevenir e assumir responsabilidade.

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