03 MAR 2026

SC em “pleno emprego” e a pressão por menos horas: avanço social ou risco produtivo?

Santa Catarina gosta de se enxergar como um estado que trabalha, e trabalha muito. Mas, em 2026, a conversa que cresce no país é outra: trabalhar menos horas. A redução da jornada e o fim da escala 6×1 avançam no Congresso e voltaram a dividir opiniões com um ingrediente que, por aqui, pesa mais do que discurso: o mercado de trabalho está no limite.

O dado que embasa a expressão “pleno emprego” é claro. Em 2025, Santa Catarina fechou o ano com taxa anual de desocupação de 2,3%, a menor da série histórica da PNAD Contínua, segundo o IBGE. Esse número, na prática, traduz escassez de mão de obra em vários setores — o que já pressiona salários, aumenta a rotatividade e cria gargalos na produção.

É nesse cenário que a proposta de redução de jornada deixa de ser um debate apenas sobre direitos e passa a ser um debate sobre capacidade de entrega. No Senado, a PEC 148/2015 prevê redução gradual do teto semanal de 44 para 36 horas. Na Câmara, há outras propostas que também redesenham o regime de trabalho, com formatos que vão de 40 horas a semanas com mais dias de descanso.

De um lado, há um argumento legítimo: mais tempo de vida fora do trabalho, menos desgaste, mais saúde, mais convivência, mais estudo. De outro, a conta que o setor produtivo insiste em colocar sobre a mesa: reduzir horas sem reduzir salário tende a elevar custos — e essa elevação aparece no preço final.

A Fiesc estima que a mudança pode aumentar em cerca de 10% o custo do trabalho em Santa Catarina. E projeta reflexos no bolso do consumidor: alta média de 2,64% nos preços, com maior impacto em áreas intensivas em mão de obra, como construção civil, alimentos e vestuário. Em outra análise divulgada pela entidade, um estudo citado da CNI aponta que uma redução para 40 horas geraria custo extra anual de R$ 17,13 bilhões às empresas catarinenses.

No cooperativismo — força econômica e social no interior — o alerta também vem com números robustos. Estudo divulgado pela OCESC projeta R$ 10,8 bilhões por ano de impacto para as cooperativas catarinenses e a necessidade de contratar mais gente para compensar menos horas: seriam 12.394 novas contratações com jornada de 40 horas; ou 26.664 se o teto cair para 36 horas.

A pergunta incômoda é: contratar quem? Com desemprego baixo, o problema não é só custo, é disponibilidade de mão de obra. E aí surge o risco colateral: empresas podem reagir com automação acelerada, terceirização, informalidade ou corte de vagas — justamente o oposto do que a agenda social pretende proteger.

Nada disso significa “enterrar” o debate. Significa discutir com seriedade, porque Santa Catarina não é homogênea. O que pode funcionar em atividades de escritório e serviços digitais pode ser inviável — ou muito mais caro — em produção contínua, comércio, logística e saúde.

Se houver redução, o caminho mais responsável parece ser o da transição, do recorte por setor e do ganho de produtividade: metas, tecnologia, qualificação e negociação coletiva realista. Jornada menor pode ser avanço civilizatório, desde que não vire, no fim da cadeia, uma combinação perigosa de preço mais alto e emprego mais frágil.

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