10 JAN 2026

UE–Mercosul: quando o pragmatismo vence o impasse e abre oportunidades ao Brasil e a Santa Catarina

Após 25 anos de negociações, avanços tímidos, recuos políticos e resistências de ambos os lados, o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul caminha para a assinatura. Não é pouco. Trata-se da formação da maior zona de livre comércio do planeta, reunindo cerca de 720 milhões de consumidores e um PIB combinado estimado em US$ 22 trilhões. Mais do que números expressivos, o entendimento simboliza a vitória do bom senso em um cenário global marcado por protecionismo, tensões geopolíticas e cadeias produtivas em reconfiguração.

Para o Brasil, o acordo representa uma virada estratégica. A União Europeia é um dos principais parceiros comerciais do país e o tratado tende a reduzir ou eliminar tarifas sobre uma ampla gama de produtos industriais e agropecuários, além de facilitar investimentos, compras governamentais, serviços e cooperação tecnológica. Em um mundo que discute segurança alimentar, transição energética e sustentabilidade, o Brasil apresenta ativos relevantes como escala produtiva, matriz energética limpa e capacidade de oferta.

É verdade que o acordo traz contrapartidas exigentes. A ratificação ainda depende do aval do Parlamento Europeu e de parlamentos nacionais, onde persiste a resistência de setores agrícolas que temem a concorrência de produtos sul-americanos. A agenda ambiental segue como ponto sensível, com cobranças rigorosas sobre desmatamento, rastreabilidade e compromissos climáticos. Há, ainda, a possibilidade de questionamentos jurídicos dentro da própria União Europeia. Do lado brasileiro, desafios estruturais de logística, custos de produção e competitividade que podem limitar o aproveitamento pleno do tratado. Entraves reais, mas que não anulam o fato de que, pela primeira vez em um quarto de século, o acordo saiu do discurso e entrou no campo da decisão política.

Santa Catarina no radar europeu

Para Santa Catarina, o acordo chega em momento oportuno. O estado tem perfil exportador diversificado, forte presença industrial e uma logística portuária estratégica, com destaque para Itajaí, Navegantes e São Francisco do Sul. A aproximação com a União Europeia amplia oportunidades em setores onde Santa Catarina já é competitiva.

A agroindústria, especialmente carnes suína e de aves, pescados e produtos processados, pode ganhar fôlego com maior previsibilidade de acesso ao mercado europeu. A indústria metalmecânica, têxtil, cerâmica, de móveis e de equipamentos tende a se beneficiar da redução de barreiras tarifárias e da harmonização de normas técnicas.

Outro ponto relevante é o estímulo à inovação e à sustentabilidade. Santa Catarina, que já se posiciona como polo de tecnologia e economia criativa, pode atrair investimentos europeus interessados em cadeias produtivas mais verdes, rastreáveis e tecnológicas. O acordo, nesse sentido, não é apenas comercial; é indutor de desenvolvimento.

O acordo UE–Mercosul é uma ferramenta para ampliar competitividade, diversificar mercados e reduzir vulnerabilidades externas. Para Santa Catarina, o desafio agora é transformar oportunidade em estratégia, com planejamento, responsabilidade e ambição.

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