23 FEV 2026

Violência contra a mulher: Executivo e Legislativo de SC apontam para o mesmo lado

A violência contra a mulher deixou de ser um tema periférico na agenda pública catarinense. Executivo e Legislativo, em movimentos distintos, mas convergentes, passaram a reconhecer que o enfrentamento do problema exige mais do que campanhas pontuais ou respostas emergenciais. Exige mudança cultural, responsabilização, prevenção e presença efetiva do Estado.

Nesta segunda-feira (23), o Governo de Santa Catarina deu início a uma nova etapa da campanha Catarinas por Elas, idealizada pelo governador Jorginho Mello, com uma proposta que chama atenção: falar diretamente com os homens. A iniciativa parte de uma premissa simples e, ao mesmo tempo, contundente — a violência contra a mulher é praticada majoritariamente por homens e, portanto, é com eles que o diálogo precisa acontecer.

O primeiro ato de mobilização reuniu mais de mil servidores públicos, numa estratégia que busca começar “dentro de casa” e dar escala à mensagem. O discurso é direto: não se trata de slogan, mas de compromisso. O próprio governador sintetizou ao afirmar que “o problema está nos homens, não nas mulheres”, e que proteger mulheres precisa ser uma prática cotidiana, não apenas retórica.

Os números ajudam a dimensionar o desafio. Entre 2022 e 2025, Santa Catarina reduziu os registros de feminicídio de 57 para 52 casos. Ainda assim, somente em 2025, foram solicitadas 31.655 medidas protetivas de urgência. A cada pedido, uma história de medo, risco e tentativa de sobrevivência.

No campo da segurança pública, um dado chama atenção: mais de 100 mil mulheres já foram atendidas pelo programa Catarinas por Elas, e nenhuma delas foi vítima de feminicídio. O recado é claro — acompanhamento contínuo, integração de serviços e resposta rápida salvam vidas.

Enquanto o Executivo aposta na mudança de comportamento e na prevenção, o Legislativo reforça a necessidade de olhar para os dados, identificar padrões e cobrar efetividade das políticas públicas. O Observatório da Violência Contra a Mulher, da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, revela um cenário alarmante: entre 2020 e 2025, foram registrados 445.225 crimes de violência contra a mulher no Estado — média de 198,5 casos por dia, mais de oito por hora.

Não são estatísticas frias. São histórias interrompidas, vozes silenciadas e famílias devastadas. Casos como o de Priscila Dolla, morta pelo namorado em Rio Negrinho, ecoam como um grito coletivo que não pode ser ignorado.

A coordenadora do Observatório, deputada Luciane Carminatti, alerta que a violência segue um ciclo conhecido: começa no controle, na humilhação, na ameaça, até escalar para agressões físicas e, em muitos casos, para o feminicídio. Já a deputada Paulinha chama atenção para a urgência de novos protocolos de ação e para o fato de que a violência não começa no homicídio, mas nas ameaças — que lideram os registros.

Outro dado inquietante: Santa Catarina é o segundo estado do Brasil em descumprimento de medidas protetivas. Uma em cada quatro ordens judiciais é desrespeitada. Medida que não é fiscalizada não protege.

Há ainda um padrão recorrente: 85,7% das vítimas de feminicídio não tinham boletim de ocorrência contra o agressor, enquanto 71,4% dos autores já possuíam algum registro policial. O risco, na maioria das vezes, é previsível.

Os dados de 2026, ainda parciais, reforçam a tendência: 6.983 casos de violência contra a mulher, 3.107 ameaças, 1.759 lesões corporais e cinco feminicídios registrados até agora. Em quatro deles, apenas no mês de fevereiro.

Diante desse cenário, fica evidente que campanhas de conscientização, observatórios, medidas protetivas e canais de denúncia precisam funcionar como partes de um mesmo sistema. Um sistema que previne, acolhe, protege e responsabiliza.

Executivo e Legislativo apontam, cada um à sua maneira, para a mesma direção: enfrentar a violência contra a mulher é uma emergência social. Não é pauta ideológica, não é bandeira partidária. É defesa da vida.

Que o discurso se converta em políticas permanentes, orçamento, fiscalização e resultados. E que nenhuma mulher precise ajoelhar para pedir o direito básico de continuar viva.

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